12ª edição ganha formato de jantar-espetáculo com gastronomia, música e arte em uma noite dedicada ao protagonismo feminino


O Chefs Contra o Câncer veio diferente em 2026. Na 12ª edição, realizada no Complexo CentoeQuatro em benefício da Casa de Acolhida Padre Eustáquio — CAPE, o tradicional jantar ganhou ares de espetáculo, quase uma instalação em movimento, com a gastronomia tratada como arte ao lado da música, projeções e luz.

 

Uma noite dedicada ao protagonismo feminino, com seis chefs à frente do menu e mulheres ocupando também diferentes funções na harmonização, coordenação da cozinha, direção artística, cena e até o serviço.

crédito Francisco Dumont


A experiência começou no coquetel receptivo de Patrícia Soutto Mayor, à frente do Buffet Célia Soutto Mayor. Vieram o canapé de manga e Parma, nuvem de tartar de ragù de linguiça, camarões lollypops ao molho shoyu no espeto, mignon espetado na cana-de-açúcar e triângulo de palmito regado ao aceto balsâmico. Cinco bocadas bem diferentes entre si para abrir o apetite, acompanhadas pelo Estelado Rosé Extra Brut País, da Miguel Torres, espumante chileno elaborado pelo método tradicional e escolhido por Laura Fonseca, do Taste-Vin, para o receptivo.


Com curadoria de João H. Eugênio e Thiago Romano, da Romano Comunicação, o ponto de partida foi uma pergunta lançada às cinco chefs: que gosto tem o Brasil? As respostas vieram pela cozinha e deram origem aos cinco “Brasis à Mesa”, narrativa desenvolvida pela doBrasil Live MKT para transformar o jantar em espetáculo gastronômico.


A noite ganhou um prólogo e cinco atos, em que prato, música, luz e imagem mudavam juntos. Nas paredes do salão, as ilustrações de Milena Thomazella, designer da doBrasil, ganharam movimento nas videoartes criadas por Homem Gaiola. No palco, a cantora Ana Luísa Cosse conduzia a passagem entre esses Brasis com uma canção brasileira escolhida para cada um deles. Água, Terra, Quintal, Fogo e Sol ganhavam, assim, sabor, paisagem e trilha sonora.


O primeiro foi o Brasil das Águas, com inspiração direto do Pará. A carioca Flávia Quaresma, do saudoso Carême Bistrô e do Mesa Pra Dois no GNT, abriu o jantar com um ajo blanco paraense com feijão-manteiguinha, camarão e cuscuz de mandioca. Castanha-do-Pará, farinha-d’água, tucupi, pimenta-de-cheiro, coentro e quiabo completavam a composição.


Ao ritmo do lundu “Negro Sol”, de Márcio Macedo, rios e floresta tomaram as paredes. O creme chegou leve e com boa acidez, o camarão trouxe intensidade e o cuscuz de mandioca acrescentou textura. Um começo fresco, cheio de referências amazônicas. Na taça, Laura escolheu o uruguaio Albariño Gran Reserva 33 Aniversário, da Verdemar Gimenez Mendez.


O jantar seguiu para o Brasil que Nasce da Terra, com a criação de Mariana Correa, da La Parisserie e professora da UniBH com a Le Cordon Bleu. A confeiteira fez uma inversão especialmente interessante. Creme de coco, grué de nibs de cacau, beterraba glaceada, chips e sorbet de abacaxi são sabores e técnicas que facilmente poderiam aparecer na sobremesa, mas chegaram como entrada salgada. O dulçor da beterraba e do coco encontrou a acidez refrescante do abacaxi e o amargor do cacau em diferentes texturas. Uma brincadeira deliciosa entre os limites do doce e do salgado.


“Morena Tropicana”, de Alceu Valença, embalou esse Brasil de raízes, sementes e frutas, enquanto as projeções ganhavam uma atmosfera tropical. Para acompanhar um prato que já fugia do convencional, outro vinho fora da curva: o espanhol, orgânico e laranja Pellnua “Raw” Orange Wine 2024, da Bodegas Enguera.


Da terra veio o Brasil de Quintal. Ana Gabi Costa, chef do Trintaeum, apresentou o “Porco sem mágoas”, feito com copa-lombo braseado e temperado com cachaça e limão. Acompanhavam coalhada temperada com purê de abóbora assada e balsâmico, salada de cheiro-verde com couve, redução de mexerica, óleo de pimenta-biquinho e chips de banana madura.


O porco chegou suculento, equilibrado pelo frescor da couve e das ervas e pela acidez da mexerica. Abóbora e banana trouxeram doçura na medida e a pimenta-biquinho levantou o conjunto. “Paisagem da Janela”, de Lô Borges, não poderia ser escolha mais mineira para acompanhar esse capítulo.


E Laura Fonseca manteve Minas também na taça, com o Benvindo Syrah 2025, da Garcia de Paula, produzido na Serra do Ibitipoca, em Lima Duarte.


E havia mais cozinha à vista. O Chefs Contra o Câncer montou um palco para montagem dos pratos, levando para o centro da cena os bastidores da cozinha. Ali, os protagonistas eram a equipe de alunos da UniBH em parceria com a Le Cordon Bleu, trabalhavam sob a supervisão das chefs e da coordenadora de cozinha Carol Haddad, mais os sous chefs da noite Jana Barrozo (Cabernet Butiquim e Rex Bibendi), e Lucas Castro Dal Grano).

A temperatura do jantar subiu no quarto ato, com o Brasil entre Fogo e Brasa. Dayse Paparoto, vencedora da primeira temporada do MasterChef Profissionais e chef do Paparoto Cucina, apresentou uma costela bovina assada por 12 horas, que veio desmanchando, junto de um aligot de mandioca com queijo meia cura e vinagrete de milho grelhado.


Um prato intenso, que ganhou ainda mais corpo com o chileno Elki Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2025, do Valle de Elqui. Nas paredes, a paisagem virou brasa enquanto Ana Luísa cantava “Todo Amor que Houver Nessa Vida”, de Cazuza.


Da brasa nasceu o Brasil Solar. Coube a Saiko Izawa, pastry chef do Rosewood São Paulo e eleita Latin America’s Best Pastry Chef em 2017, encerrar o jantar com uma pavlova de frutas amarelas e compota de berinjela, com manga e abacaxi.


A acidez das frutas equilibrou bem a doçura e a crocância do merengue, enquanto a berinjela apareceu delicadamente, quase como uma fruta em calda. Um final tropical e fresco depois da potência da costela. O dourado tomou as projeções e “Feira de Mangaio”, na interpretação de Clara Nunes, encerrou o percurso. Na última taça, Graham’s Extra Dry White Port, um Porto branco seco que fechou a sequência de harmonizações proposta por Laura.

Que gosto tem o Brasil? Naquela noite, teve gosto de água, terra, quintal, brasa e sol.

Texto e fotos: João H. Eugênio

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Chefs Contra o Câncer 2026 na minha coluna de gastronomia do jornal Cidade Conecta

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